Autonomia biológica
O que queremos dizer com este conceito?
Se você acompanhou os textos anteriores, lembra que falamos sobre o padrão flexor e sobre a ação da força gravitacional no corpo. Falamos também de como a organização do corpo interfere diretamente na qualidade do movimento.
Em termos de longevidade saudável, produtiva, autônoma, independente e outros adjetivos chamativos está o que chamamos de eficiência biológica. Esta eficiência implica, dentre outros aspectos, que a pessoa apresente uma certa coerência em termos de proporção de tecidos biológicos.
Por exemplo: de acordo com a biologia existem quatro tipos de tecidos em nossa constituição física, são eles – tecido muscular, tecido nervoso, tecido epitelial e tecido conjuntivo. Este último é um tanto confuso para quem não é da área da saúde. Você sabia que sangue é considerado como tecido? Gordura, ossos, tendões e ligamentos, assim como cápsula, bursa, cartilagens e toda a matriz extracelular fibrosa estão classificados como tecidos conjuntivos.
Bem, não se preocupe em entender profundamente o papel de cada um na harmonização da composição corporal humana. O mais fácil de identificar é o excesso de tecido adiposo, facilmente reconhecido nas pessoas com sobrepeso e obesas. Por ser um tecido especializado em armazenamento, facilmente aumenta sua proporção se a alimentação excede o que necessitamos no dia a dia. Este aspecto nós podemos controlar desenvolvendo bons hábitos nutricionais.
Veja bem, gordura em excesso é como se a pessoa estivesse transportando um tanque extra de substrato para gerar combustível – ATP – trifosfato de adenosina, que é o nosso correspondente à gasolina ou etanol que os veículos motorizados utilizam como combustível.
Parece bom ter esta reserva? Infelizmente não é.
Gordura em excesso se torna altamente inflamatória e é o gatilho que desencadeia a maioria das doenças, inclusive as autoimunes.
Outra situação que poucas pessoas prestam atenção é o excesso de tecido muscular que podemos observar em pessoas do fisiculturismo ou pessoas com vigorexia — uma preocupação excessiva com o corpo, em que a pessoa nunca se vê suficientemente forte ou musculosa, mesmo já tendo um desenvolvimento acima do normal.
O excesso deste tecido, na maioria das vezes conseguido com uso de anabolizantes – extremamente perigosos para a saúde – e excessos de treinamentos, pode acabar limitando movimentos simples do dia a dia, comprometendo a eficiência biológica e abrindo espaço para doenças.
Assusta um pouco, não é? Pois é!
Então vamos voltar ao assunto da eficiência biológica.
Agora que você já sabe o que pode acontecer nesta desarmonização na proporção de tecidos biológicos, o que fazer?
A escolha de atividades físicas que sejam possíveis de serem executadas em tempo relativamente prolongado, com intensidade moderada, acima de 30 minutos e até um tempo de 90 minutos ao longo do dia é um caminho.
Não se assuste. A somatória de atividades durante o seu dia conta como um fator positivo.
Claro, se você está começando, precisa iniciar com pequenas doses – alguns minutos. Progressão é a chave do sucesso.
Quais atividades?
Bem, a mais fácil de começar é a caminhada e aqui mora um ponto importante: muitas vezes as pessoas começam a caminhar e logo estão trotando.
Andar – em ritmos variados, em pisos variados, planos e inclinados, terra, grama, areia dura, topografias irregulares são mais propícias para gerar estresse mecânico do que pisos planos e regulares.
Evite andar em esteiras mecânicas pois, além de planas e com pouca possibilidade de inclinação, é a máquina que determina o ritmo e não você.
Além disso, é interessante modificar o grau de amplitude articular.
Trotar - É preciso orientação sobre a maneira mais eficiente em termos de tamanho do passo, abordagem do pé ao solo e grau de amplitude articular para não gerar a possibilidade de lesões.
Correr - É uma estratégia de locomoção que exige estrutura física compatível com o esforço dinâmico, pois ao correr o impacto dos pés contra o chão chega a três vezes o seu peso. Isto, se realizado sem eficiência dinâmica, pode ocasionar lesões.
Outras atividades interessantes!
Pedalar - de preferência em bicicleta, remar – todos os tipos – nadar!
Você deve ter notado que são atividades cíclicas - atividades em que o grau de amplitude articular varia muito pouco e se repete continuamente.
Temos orientações simples para modificar esta situação (Menegatti: Benefícios da camainhada - prática).
Resumindo, a eficiência biológica resulta de uma estrutura física forte e resiliente que permite que as funções e ajustes fisiológicos aconteçam da melhor forma possível em qualquer contexto da vida. E isso se conecta diretamente com o que vimos anteriormente: a forma como a pessoa se organiza diante da gravidade e como nos movemos no dia a dia.
No próximo texto trarei informações sobre como controlamos nossos movimentos no dia a dia.
SEGUIMOS JUNTOS










